sábado, 25 de outubro de 2014

DIÁRIOS DA DESINFORMAÇÃO III (ELEIÇÕES 2014) - OXÍMOROS



EM 2002 O PRESIDENTE QUE NOS DEU O PLANO REAL 
APOIOU A CANDIDATURA DE LULA CONTRA O PSDB



"No futuro a história vai contar o que eu já sei."

- Ciro Gomes, Roda Viva (1995)


Notar, todo mundo notou. Isso nem se discute. Todo mundo, independente da preferência eleitoral. E não deixaram de surgir, rompendo a barreira dos infames piadistas e debochadores, alguns bem informados cidadãos queixosos. Coisa que não representou qualquer diferença. O fato segue.


“Não vamos ver ou ouvir na grande mídia a afirmação de que no governo Dilma sua administração obteve, nos três primeiros anos, a mais baixa inflação média desde o Plano Real”, admoesta Luiz Carlos Lantireri do site Imagem Política. Correto. Tal afirmação tem sido evitada quase que por completo, raramente figurando nas manchetes e editoriais. Mas não pela razão que os propagandistas da campanha tucana, assumindo o chapéu de visgos reluzentes e o chocalho enfeitado de bobo da corte, alegam, freqüentemente de modo tolo, burlesco, gozador. 

Como escreveu Machado de Assis: “A verdade é essa, sem ser bem essa”.


Nesta eleição de 2014, a retórica ilusionista da direita brasileira apóia-se inteira na afirmação de que o PSDB, criador do Plano Real, é originalmente responsável pelo sucesso do PT. Sem a ajuda do PSDB ― encarnada na efígie do sociólogo Fernando Henrique Cardoso ―, o PT na presidência não teria significado nada, dizem crer alguns. Quem criou o Real, porém, foi o presidente Itamar Franco, ex-vice do Collor (PRN), que ficou do lado do Lula nas eleições de 2002, numa época em que era impraticável negar que o preço de manter o PSDB na presidência, além de quase afundar a nova e até então promissora moeda em dívidas, saiu tão caro que o país talvez não se recuperasse por completo nessa geração.

“Nos anos 2011, 2012 e 2013”, segue Lantieri referindo-se ao período Dilma, “os preços medidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiram em média 6,08% ao ano.” O autor compara esse valor com os dados da administração anterior, “no governo Lula a média anual de inflação nos três primeiros anos (2003, 2004 e 2005) foi de 7,53%”, assim como com os dados do governo que precedeu a este, não nos deixando esquecer que nos três primeiros anos “do governo FHC (1995, 1996 e 1997) a inflação média anual foi de 12,40%”, um resultado insustentável para o crescimento econômico. E o que pode ser dito disto (bom, ao menos por qualquer um que, por não defender a presidência tucana, obviamente não está de gozação, redondamente enganado ou mentindo descaradamente) é certo e nítido como a memória de qualquer um que, na época, já apresentasse estatura o bastante para efetivamente se preocupar com política e economia, independente de votar ou não no PT. 


“Mesmo ajudado pelo Plano Real, do governo Itamar Franco, que veio desbancar uma inflação de 2.477,15% em 1993, o governo de FHC alcançou os 12,40% de média”, o dobro da inflação que suportamos atualmente, resume o autor, lembrando a todos os amnésicos que hoje agitam bandeirinhas do PSDB que, da última vez que tal legenda esteve no poder ― e não por acaso ―, o país viveu um amaldiçoado período de oito anos ― oito anos cravados e redondos, exatamente dois mandatos ― de uma total instabilidade econômica. Um período em que o Real, a jovem e viçosa moeda que então mal havia surgido, beirou a falência. “Quanto ao governo Lula, ele herdou uma média de 12,40% e conviveu com uma média de apenas 7,53%”, um merecido fôlego para uma nação robusta que fora capaz de prevalecer à folia financeira de FHC.


O país chegou a quebrar três vezes e a resposta de Fernando Henrique foi sempre a mesma: pedir arrego ao capital estrangeiro, cedendo aos poucos, exageradamente, o assento do piloto na economia nacional para o Fundo Monetário Internacional ― coisa que, então, soou bastante contraditória. Além de tornar-se um de nossos maiores credores, logo também cabia ao FMI fazer exigências operacionais e gerenciar nossas contas. A ponto de que, no auge da gestão tucana, quem efetivamente decidia o que era ou não melhor para o Brasil era algum desconhecido em quem nenhum de nós jamais votou, formado em economia, é quase certo, orientado segundo a cartilha neoliberal do sistema Breton-Woods, isso é mais que certo, e trabalhando, não no planalto central, obviamente, mas em Washington, DC. 


Junte a isso o fato de que, emparedado entre seus credores e a oposição, totalmente desarmado diante das eleições de 1998, FHC, fustigado por índices de impopularidade históricos que em nada perdiam para os de um outro Fernando aí, mais colorido, vendo-se obrigado a dar a impressão de que também sabia fazer dinheiro, em vez de tão-somente empilhar dívidas, meteu-se numa campanha irracional de privatizações apressadas, mal feitas, replicando, apesar de conhecer os péssimos resultados, como um kamikaze de imitação, a mesma trágica receita do argentino Menem ― aliás, outro fantoche do FMI ― e conquistando, um prejuízo após o outro, o mesmo exato desastre econômico, naturalmente. 

E para aqueles que dirão que eu estou sendo maldoso com o príncipe dos sociólogos, o Harry Potter do PSDB, que eu só vejo o lado negro das coisas, que eu deveria sorrir mais, etcétera e tal, a verdade é que este artigo é até um elogio: a seu modo, a performance de FHC foi indiscutivelmente impressionante! 


Não pelo mitológico feito de ter mantido a inflação aceitável em época de juros vergonhosamente astronômicos ― as maiores taxas jamais vistas por toda a civilização de mercado do único planeta com bancos em todos os sistemas solares conhecidos. Mesmo porque, além de FHC ter perdido o controle e desestabilizado uma inflação antes em acentuada queda, e logo no primeiro ano de mandato, a verdade é que os juros também não eram vergonhosos por causa da época em si, espontaneamente e pronto, como alguns dizem crer hoje em dia. Aquela montanha russa de números já era o invencível “efeito-PSDB”, digamos. Isso sim foi de cair o queixo! 


A legítima conquista tucana, o goal que, apesar de contra, ninguém pode negar que foi de placa, está no notável feito do PSDB ter demonstrado uma infalível capacidade de errar sempre, ininterruptamente, sem erro, de modo não apenas grave e injustificável, mas também coordenado, programado. Errar devastadoramente, porém, obedecendo a rigorosos padrões de eficiência, prévia e amplamente testados ao longo de diversas colônias econômicas do sub-setor latino-americano (logo mais endividadas que nunca). Coisa que, para o bom entendedor, geopoliticamente falando, supõe um tipo de falha muito mais grave que errar.

O efeito-PSDB sob a gestão nacional foi pior que azar de espelho quebrado. Oito anos! Oito anos de incorrigíveis traquinagens e malandragens em geral. Oito temporadas do mesmo humor negro, da mesma hilariante comédia-pastelão feita inteiramente de pancadas na nação brasileira.


Se a pantomima financeira tucana fosse um episódio do cultuado programa de tevê infantil mexicano, El Chavo Del Ocho, a América Latina inteira teria ouvido do PSDB, ao passar a faixa para o PT, aquele velho e conhecido oxímoro que a tantas gerações fez sorrir: “Foi sem querer, querendo!”, seguido de um profuso e penoso choro incontido: “Pí-pí-pí-pí-pí-pí-pí-pí-pí...!” Distante embora no centro de tudo, o FMI apenas lavou as mãos com soberbia. Não saiu de fininho, não fez silêncio, sequer baixou a voz. Na verdade dava para ouvi-los de longe: “Nós tentamos, todo mundo viu. Mas aquele povinho lá, né? Vamos Fernandito, não se misture com essa gentalha!”


“O Brasil tinha levado 500 anos para fazer uma dívida pública equivalente a 36% de um ano de produção, o chamado PIB”, resumiu em entrevista ao programa Memória Viva o ex-ministro Ciro Ferreira Gomes, lembrando que, até o fim do período Itamar, essa dívida de 36% do PIB era resultado do esforço de criação de toda a infra-estrutura nacional: nossa malha rodoviária, parques industriais, portos, empresas de mineração e energia como a Petrobras, a Eletrobrás, a Vale do Rio Doce, etc. Ex-governador do Ceará (estado, aliás, cuja população nordestina, segundo FHC em recente comentário, é parte da massa eleitoreira burra, sem competência para votar de modo informado, inteligente), Ciro Gomes fuzilou sem piedade: “Fernando Henrique, em apenas oito anos, explodiu essa dívida para 72% do PIB! Dobrou a dívida!”


Numa entrevista dada a CNT em 2009, demonstrando comovente indignação com a desinformação generalizada sobre a extensão dos prejuízos acarretados pelo efeito-PSDB, Ciro desabafou: “Eu era ministro da fazenda! [...] Essa gente dilapidou o patrimônio brasileiro! Aí a carga tributária, que pesa sobre quem trabalha, pesa sobre quem produz, tira a competitividade sistêmica, era de 27% [...], o Fernando Henrique entregou para o Lula com 35%. [Na verdade mais, 36%] O investimento brasileiro caiu ao pior nível desde a Segunda Guerra Mundial! Destruíram as universidades brasileiras [...] em apenas oito anos de maluquice! De prostração ideológica neoliberal! De mistificação!”


Como se começasse a dar vazão a uma verdadeira represa contida há anos no peito, debulhando-se entre gestos e olhares, o ex-prefeito de Fortaleza era pura agitação: “O Elio Gaspari [...] chamou o processo de privatização que eles fizeram de ‘privataria’ [...], uma mistura de ‘privatização’ com ‘pirataria’. O Brasil simplesmente foi ao rés do chão! Faltou energia, pelo amor de Deus!” A lista de desastres impressiona. Em certo ponto, Ciro se deteve e preveniu: “Então essa gente não pode voltar! Porque agora o Lula provou para todos nós, brasileiros, que nós temos condições de resolver o nosso desafio. E olha que o Lula pegou a coisa degringolada, no ano de 2003 o Brasil quase quebra de novo! Agora estamos passando a maior crise do capitalismo moderno e o Brasil não quebrou...”


É contraditoriamente plausível se afirmar que, de certo modo, o desastroso efeito-PSDB na gestão brasileira é um elogio àquele que fora o verdadeiro chefe de Armínio Fraga na presidência do Banco Central dos anos FHC, a prima-dona dos investidores, George Soros, empresário húngaro imbatível que chegou a lucrar 1 bilhão de dólares num único dia de trabalho, apostando irresponsavelmente contra o banco da Inglaterra. Em seu livro, A Crise do Capitalismo, Soros reconhece que não faz sentido algum esperar do mercado compaixão e solidariedade.


Tentado pelo capital internacional, agindo como um desfavorecido dependente de cocaína em crise de abstinência, o governo tucano se desfez de quase tudo o que conseguiu pôr as mãos em cima. Movido pelo senso de prioridade de um toxicômano em agonia, o PSDB cheirou a Eletrobrás, cheirou a Telebrás, cheirou a Vale, e, demonstrando uma incompetência superior, incomparável, jamais vista antes, sequer arrecadou o suficiente para quitar as dívidas e equilibrar as finanças do país, mesmo vendendo extensivamente o patrimônio construído pelo Brasil ao longo de sua história recente por cerca de 100 bilhões de dólares.


Até soa, eu sei, mas não é muito. Comparativamente falando, com relação aos valores reais e preços de mercado, é como se fosse literalmente menos que nada. Se o patrimônio brasileiro vendido pelo PSDB fosse uma refeição servida a la carte, numa longa mesa de banquete, para o capital internacional (eu disse “se”?), a conta oferecida após o cafezinho teria saído mais barata que a gorjeta referente ao valor justo. A Vale sozinha custava quase isso, quase 100 bilhões. Porém, aos trancos e barrancos, na maior fissura, entre tremores e suores frios, o governo tucano a leiloou por apenas 3 bi. Foi assim, absurdamente, que uma das maiores mineradoras da América Latina saiu de nossas mãos e foi devorada pelo Império por 30 vezes menos do que valia. 


A inflação, a recessão, o desemprego, enfim, o desastre econômico só não veio antes porque, ao assumir o país, o PSDB não considerou ainda mais a conveniência dos grandes investidores privados e, para a completa decepção do cidadão brasileiro, instalou um drive-thru na nação, inaugurando a nova praça de alimentação latino-americana com luminoso e tudo.

Cheep meal, fast food for the owners of all! Bring your family tonight!

Mas tudo bem, sejamos compreensivos com a “sensibilidade” neoliberal e seus “valores”. Afinal, o que é a decepção diante de perspectivas macroeconômicas? Apenas um sentimento insignificante, um nada no mundo, não é mesmo? 


Imagine voltar a ser criança e encontrar por sorte uma daquelas tradicionais latinhas de spam (carne enlatada inglesa, criada em tempos de guerra e racionamento), decorada com um desses charmosos rótulos antigos, de época, como tanto se vê nos filmes. (Eu tento: “Hmmm, maravilha! Vale cada centavo do cofrinho!”) Agora se imagine, como essa mesma criança, sentado próximo à tevê ― quase dentro dos filmes! ―, fascinado. Você abre a latinha sem pressa, apesar da ansiedade, saboreando a antecipação. Então imagine descobrir a mortadela esverdeada, bolorenta, arruinada... Se para Forrest Gump, a vida é cheia de surpresas como uma caixa de chocolates, para o Brasil, a presidência tucana foi uma surpresa desagradável e nauseante como spam esverdeado.


Não sei por que, de súbito, o rosto de Alan Greenspan me veio à mente, interrompendo meu exercício de imaginação. Associava imagens espontaneamente, “spam”, “e-mails chatos”, “circos no céu”, “Monty Pyton”, quando de repente... Sei lá, provavelmente foi só por causa do tema que estou desenvolvendo. De qualquer modo, é preferível mesmo seguir escrevendo, direto, sem cortar o fluxo de palavras, o fio das idéias. Sem deixar as mãos esfriarem... Greenspan, então. Economista americano, uma anacrônica mistura de Tio Patinhas com Mr. Magoo. 


Foi capitão naval de uma imponente embarcação, o FED, o banco central americano, navegando-o à vela solta por indicação do xerife Ronald Reagan, um tipo de cowboy institucional da nação, não pendurando o chapéu até que os anos Clinton atingissem plena ereção, afastando-se sem deixar de elogiar FHC pela quebradeira tucana. Buscando manter os ínfimos olhinhos apertados, distorcidos pelas espessas lentes dos óculos, bem fixos no horizonte verde, na noite estrelada cravejada de cifrões dourados e cintilantes que imaginava divisar, Greenspan teve as mãos no timão da maior economia do planeta por mais de quinze anos. Era ele quem dirigia a taxa de juros e guiava a política monetária dos EUA, que não são apenas um banco de areia qualquer perdido entre o Atlântico e o Pacífico. 


A Terra costumava parar sempre que Greenspan surgia ao tombadilho com o megafone na mão. Cada pronunciamento tinha a mesma influência da lua sobre as marés. Uma fé inquebrantável em Seu senso de direção, mas principalmente no alcance de Suas visões, norteava as condições de operação de um mercado de volume oceânico. Simplesmente toda a economia globalizada do primeiro planeta financeiro contabilizando a partir do sol. Hoje, perplexo, este mesmo planeta luta para driblar a falência, debatendo-se freneticamente sem ver como desgarrar-se da inevitável obsolência de um sistema engalfinhador, como uma embarcação arrastada por um redemoinho abissal.

A proa explodindo contra as águas negras, riscando a superfície oceânica. A âncora rasgando inutilmente o fundo do mar, arando veloz o pedregoso solo submarino, apesar das velas recolhidas. Toda uma sólida estrutura naval, construída após séculos explorando o mogno das colônias tropicais caribenhas, andinas e amazônicas, agora range, estremece em sobressaltos sazonais, com crescente instabilidade. Tudo sacudindo precariamente, enquanto os especuladores enlouquecidos uivam no camarote financeiro, atiçados pela alta vertiginosa nas ações de multinacionais detentoras de marcas cada vez mais lucrativas, como Dramin, Plasil, Engov, até mesmo o popular Ketembe. E só porque levaram tempo demais em admitir que talvez a embarcação não avançasse, exatamente, devido a ventos promissores.


Enquanto isso, o velho e míope capitão comemora o sucesso de seu best-seller, A Era da Turbulência, e entra para a história por ter ajudado a bolsa de NY a não perder muito dinheiro após a implementação da false flag operation genocida de 11 de setembro, que é como mais de 80% do povo americano, gente das mais diversas classes sociais, níveis educacionais e profissões, descreve esse dia nacional, afinal de contas... Foi por esse feito que Greenspan deixou o centro do palco do teatro financeiro global visto por um mundo inteiro (o que é diferente de pelo mundo todo, não seja cego você também, possível leitor) indubitavelmente como um herói.

Herói para Fernando Henrique, por exemplo, citado pelo ex-presidente como uma importante fonte de inspiração, mesmo nos últimos anos, em plena crise tempestuosa do chamado modelo neoliberal (um tipo não-governamental de efeito-PSDB em escala planetária). 


Quanto a isso, nunca houve nenhuma surpresa. Se dependesse da direita brasileira, só seria permitido comprar ou vender, qualquer coisa nesse mundo material ― mesmo uma reles bíblia de bolso ―, a quem tivesse Seu santo nome, e tudo o que essas letras ocultam em plena luz, tatuado em lugar visível predeterminado, como um tipo de marca eletrônica com acesso a crédito, na testa ou nas costas da mão. 

Provavelmente da mão direita, suponho. Mais adequado.

Alan Greenspan é o ídolo consagrado da direita vaselina, tão escorregadio quanto as falsas promessas acrobáticas ou a cordialidade sorridente de FHC. Greenspan é o guru financeiro do PSDB. Uma voz sempre contrária ao controle do poder público sobre o mundo dos negócios. O paladino da desregulamentação dos mercados, mundialmente conhecido pelo conselho: “Deixem os mercados regularem a si mesmos”. Greenspan, vale lembrar também, é igualmente famoso por haver sido apontado como o principal culpado pelo estabelecimento das condições que desencadearam a recente crise financeira mundial. 

Para nós, brasileiros, isso é o mesmo que dizer que Greenspan foi o cara que tornou FHC possível. Quanto à turbulência, o economista dos magnatas até assume uma generosa parcela de responsabilidade, embora rechace a alcunha de culpado único e absoluto por qualquer eventual naufrágio. Entende-se. Alguns mais do que outros, claro.


Segundo o também economista Ciro Gomes, em entrevista ao programa É Notícia, o PSDB, com Fernando Henrique na presidência, pecou quando (eu o cito): “substituiu um socialismo difuso, pelo qual eu também me encantei, por esse neoliberalismo tosco que quase arrebentou o país, para não dizer que arrebentou...” Em entrevista ao repórter Paulo Henrique Amorim, da Rede Record, Ciro discorreu sobre o que realmente aconteceu durante o período das privatizações, evento que o ex-ministro da fazenda classificou como “coisa de cinema”, também reclamou da conveniente timidez da grande mídia diante do best-seller A Privataria Tucana, do jornalista-investigativo Amauri Ribeiro Jr., e lançou seus comentários sobre a investigação oficial que se tentava concretizar na época, a hoje pluri-engavetada CPI da Privataria.


“O senhor acredita então que essa CPI sai?”, perguntou em certo momento o entrevistador. Na época havia esperanças. Ciro não enrolou: “Não. Porque envolvido na privataria...”, pára e corrige, “na privatização, do governo Fernando Henrique Cardoso, estão todos...”, novamente Ciro se restringe, “todos é uma palavra que eu não deveria usar... quase todos os mega-grupos econômicos do país, inclusive aqueles das comunicações”, afirmou com gravidade. “Hmmm”, gemeu enigmaticamente Paulo Henrique Amorim. Ciro não perdeu o ritmo: “Então não é provável”, vaticinou. “O poder real no Brasil está nessa gente, na plutocracia, num governo de ricos, bancos, mega-corporações de mídia [...] e até empreiteiras!” E concluindo em tom confidencial: “Essas três forças provavelmente não permitiriam que acontecesse alguma coisa esclarecedora, não é?”


A minuciosa descrição que Ciro faz do efeito-PSDB na presidência assemelha-se a uma demolição programada, um show pirotécnico devastador constituído de dois atos ou movimentos, “um que fez a explosão da dívida sem fazer nenhuma coisa estratégica... ao contrário, vendeu a Vale do Rio Doce, enfim, vendeu o diabo do país” e, como um segundo ato, um evento distinto, porém simultâneo, “um movimento de explosão da carga tributária”, explicou. “Quando ele [FHC] tomou posse, eu era ministro da fazenda. De 27% era a carga tributária brasileira e passou para 36%, perdemos um terço dos mestres doutores das universidades e privatizou-se a demanda do ensino público nessas coisas aí que são hoje uma universidade precaríssima que o país tem, condenando milhares de jovens a essa vida de doutor despreparado ou desempregado, enfim, uma tragédia completa! E tudo pela reeleição!”


Ciro Gomes, que também integrou a presidência tucana por quatro meses, sempre confirmou, sem jamais voltar atrás, que Fernando Henrique vendeu o Brasil para se reeleger, para manter o PSDB no poder. Perguntado sobre o assunto pelo entrevistador do Memória Viva, Ciro não arredou o pé: “Ah, mas sem nenhuma dúvida”, repetiu, enfático, sobre a conduta de FHC. “Vendeu o país, a alma e tudo mais.” Até hoje, Ciro o responsabiliza pessoalmente por abandonar os limites seguros da política que estabeleceu quando presidiu o Ministério da Fazenda em seu governo, após haver trabalhado no governo Itamar Franco.


Itamar, por sua vez, liderou o país sabiamente de 1992 a 1994, assumindo como 33˚ presidente do Brasil após o desgoverno de Collor de Melo e, levado pela vigente deriva econômica, acertou em cheio ao arriscar implementar o chamado Plano Real, reforma arquitetada pelo ministro Ricúpero, mas que jamais teria vingado sem o apoio arretado de Ciro Gomes, como o própria Itamar sempre afirmou. Isso mesmo, ele de novo. O ex-prefeito de Fortaleza e cliente assíduo do restaurante chinês do Iguatemi, verdade seja dita, teve papel importante na recuperação econômica da nação, no estabelecimento das bases que possibilitaram os bem-sucedidos anos do Brasil pós-Lula.


Itamar, mesmo tendo sido vice de Fernando Collor, com diversos índices sinalizando melhora logo no início de sua gestão, não demorou em conquistar a boa estima da população, apesar do chamado escândalo da parabólica, quando o ministro Ricúpero foi flagrado, em conversa com o jornalista Carlos Monfort, da Rede Globo, desmentindo a imagem do Real como um plano miraculoso, acima de qualquer suspeita, com todos os parafusos no lugar e nenhum defeito de fábrica, ao menos não dos graves. Coisa que ainda era o oposto da verdade. A falsa isonomia cambial com o dólar, por exemplo, apesar de nos comprar algum tempo, era uma bomba-relógio em forma de colete salva-vidas. “O Plano Real era uma coisa muito séria, mas era uma gambiarra”, Ciro admitiu abertamente no Memória Viva. 


Dois anos e poucos meses depois, contudo, Itamar entregava um Brasil diferente, promissor, com uma população mais otimista. Dívida externa bem negociada, contas públicas rumando rapidamente para valores aceitáveis, inflação em queda livre e uma nova moeda que, graças a um ministro do Ceará, agora tinha seu poder aquisitivo expresso em seu nome, Real. A popularidade do governo e a confiança nas instituições estavam sensivelmente maiores. Mas isso foi só até a era FHC. Para se ter uma idéia, o PT, como Ciro não teme dizer e não perde a oportunidade de reafirmar, recebeu dos loucos anos tucanos uma dívida pública em franca ascensão, duas vezes maior que a entregue por Itamar ao PSDB e, contudo, salvou a nossa pele. 


Duas vezes! 100% de aumento! Parecia algum tipo desvantajoso de talento, uma capacidade sem igual para a ingerência, uma vocação inconseqüente para a dependência econômica, uma inclinação quase sobrenatural rumo à falência. Tudo isso, ou apenas uma irresponsabilidade notavelmente deliberada, cujo resultado decepcionante talvez só o pior eleitorado do cenário político nacional já tenha feito por merecer (aliás, como de costume). 


Mas não. Dessa vez a administração tucana não acometia apenas os paulistas, hoje residentes do novo semi-árido brasileiro, como seria justo. Dessa vez o efeito-PSDB prejudicava a todos nós. Em plena vigência do Plano Real, com a bunda gorda do PSDB pesando sobre o crescimento médio brasileiro (que em toda a administração tucana nunca subiu sequer a preocupantes 3%), o país assistiu bestificado a um lapso de oito anos onde o desempenho nacional figurou como o mais preocupante da história moderna do Brasil. Ou seja, o pior desempenho desde que o Marechal Deodoro da Fonseca proclamou a república, quando aquele arrojado maiô de praia masculino com listras brancas e toquinha de banho opcional era a última novidade da moda.


Quanto à bravataria tucana de colocar FHC do PSDB na posição de artífice do Plano Real e legítimo dono da chuteira de ouro que desferiu o ponta-pé inicial da recuperação brasileira ― quem sabe até com uma ajudinha do Itamar ―, semelhante causo se desmancha no ar frente a versão dos fatos apresentada por Ciro, que foi ministro da fazenda em ambas as gestões, com elogiado desempenho, até mesmo por parte de membros da oposição, tendo participado inclusive do período de transição entre os governos. O testemunho de Ciro Gomes, ao contrário do insulto à nossa memória e lucidez que a campanha tucana representa, presta um impetuoso serviço de resgate a um dos capítulos mais significativos da história da democracia brasileira.


Itamar tentaria posteriormente se recandidatar à presidência pelo PMDB ― que não, eu acabei de checar, não é uma legenda necessariamente comprometida com a direita brasileira. O PMDB, alegadamente, é uma chapa de inclinação centrista, substituto do Movimento Democrático Brasileiro que fez oposição ao regime militar parido a fórceps no obscurantismo do golpe de 64. 


Mesmo assim, o partido optou pelo nome de um senhor talvez mais experiente e maduro, Antony Garotinho (juro!), e, como se não bastasse, Itamar Franco se retirou da vida pública ressentido por ver a principal conquista de sua carreira política usurpada pelo PSDB. Em seus dias finais, o ex-presidente era internado em estado grave, enquanto um de seus antigos assessores, sem a menor vergonha na cara, lhe furtava dos aplausos que a nação tanto lhe devia. 


Itamar Franco faleceu com cerca de 80 anos, vítima de leucemia, em maio de 2011, ano em que Fernando Henrique Cardoso, por ocasião de seu aniversário de 80 anos e do anunciado renascimento de sua carreira política, era ovacionado pela grande mídia como o pai do Plano Real.


Oito anos antes disso, FHC entregava para Lula a faixa presidencial de uma nação depauperada, que mais parecia uma vítima de assalto. Poucos meses atrás, com o ministro Pedro Malan de malas feitas e em prontidão para atender ao chamado de Washington, era impossível ligar a tevê sem receber prenúncios fatídicos. 


E aqui eu cito o repórter Paulo Henrique Amorin, abrindo mais uma edição do Jornal da Record, numa reportagem do período: “Nós vamos começar com a reação do governo brasileiro à crise. A onze dias das eleições, o presidente Fernando Henrique Cardoso adverte o país de que vai tomar medidas duras!”, alerta o apresentador. “Pela primeira vez admite aumentar impostos e recorrer ao Fundo Monetário Internacional. Antes vai antecipar as medidas que seriam exigidas no programa do FMI. Num discurso de vinte minutos, hoje, no Itamarati, o presidente defendeu a reforma da constituição e cortes nos gastos”.


Esse mesmo jornalista, Paulo Henrique Amorim, que já foi um funcionário das Organizações Globo, hoje em dia, edita um badalado blog sobre política, o Conversa Afiada, atuando acirradamente como um verdadeiro militante no combate ao jornalismo partidário praticado pela grande imprensa brasileira (corporação que Amorim ensinou o povo a chamar de PiG, partido da imprensa golpista, dando à besta, apesar de suas múltiplas cabeças coroadas, um só nome) em seu papel na ocultação da privataria tucana e na flagrante oposição midiática que vem exercendo desde os primeiros anos do novo milênio contra cada presidência popularmente eleita do Partido dos Trabalhadores, tanto os dois mandatos do governo Lula, quanto agora o primeiro do governo Dilma.

Participando de um debate no Instituto Barão de Itataré, em companhia de nomes de peso, como o delegado Protógenes Queiroz, Amorim fez questão de colocar em perspectiva a natureza criminosa de certas “falhas” que tiveram lugar durante a turbulenta passagem do efeito-PSDB pelo palácio do planalto: 


“Isso que o Amaury [autor de A Privataria Tucana] descreve já é, como eu digo no Conversa Afiada, a maior roubalheira das privatizações na América Latina”, introduz o jornalista. “E para colocar isso no seu devido contexto é bom observar o seguinte: o presidente mexicano que fez a privatização [...] e com isso se tornou o homem mais rico do mundo, Carlos Salinas de Gortari, [...] o irmão dele foi preso, ele fugiu para a Irlanda e hoje vive num bunker na cidade do México [...] O presidente da Bolívia que fez a privatização, o Lozada ― o Amaury descreve com letras vivas no livro dele ―, fugiu para Miami ao som do elogio que é a palavra “assassino!” [...] O presidente do Peru que fez a privatização, Alberto Fujimori, está preso. O presidente da Argentina que fez a privatização, e só não vendeu a Casa Rosada porque não deu tempo, teve que tomar emprestado um mandato de senador para não ir em cana. E aqui o Fernando Henrique Cardoso cobra cinqüenta mil reais por palestra! Aqui ele é levado a sério!”


Convencido de que enquanto a rede de corrupção por trás de tais irregularidades não for adequadamente apurada a saúde e a prosperidade do estado democrático brasileiro estarão sempre em risco, Amorim exorta a audiência: “Eles [o PSDB] têm que responder pelo que fizeram diante do congresso. A privatização no Brasil não é geneticamente diferente daquela que foi feita no México, na Bolívia, no Peru e na Argentina.” Sintetizando, Amorim saca de súbito um conhecido neologismo do prêmio Nobel Joseph Stiglits: “Foi um processo de ‘briberização’ [do inglês ‘to bribe’, subornar], e essa briberização o Amaury provou com documentos”.


Mais tarde foi a vez de Protógenes Queiroz, até então delegado da polícia federal e deputado federal, apresentar-se e, durante um longo testemunho, expressar sua perplexidade: “E depois foi o caso da dívida externa brasileira”, anunciou o policial, num ponto mais avançado de sua explanação. “Eu coordenei essa operação, essa importante investigação em que o Banco Central desapareceu com departamentos...”, Protógenis quase disse, ‘inteiros’, mas hesitou, “com o departamento internacional responsável pela conversão dos títulos da dívida externa. Desapareceu dentro do BC! [...] Quando eu requisitei os processos de conversão da dívida externa brasileira, simplesmente o diretor na época me confidenciou: ‘puxa, não requeira isso porque esse departamento não existe mais’. E eu falei: e os processos? ‘Ué? Você quer que exista ainda os processos?’ E ficou por isso mesmo”, concluiu lacônico.


O delegado deixou claro que o fracasso da investigação se deu por motivos de força maior. Digamos que houve alguns empecilhos de natureza burocrática. “Porque quando esta investigação ocorria quem era o presidente da república na época era o Sr. Fernando Henrique Cardoso e eu o investigava enquanto ele foi ministro da fazenda”, explicou o delegado, “e quem era o presidente do BC era o Sr. Armínio Fraga, que quando eu investigava o período dessas fraudes [...] era gerente da área internacional do BC. Um depois virou presidente da república e outro se tornou presidente do BC. E realmente essa nossa investigação ficou muito difícil!”


Atualmente o impetuoso policial-investigador encontra-se entre acusações e condenações referentes a outra operação cabeluda, o caso satiagraha, da polícia federal, envolvendo uma considerável lista de nomes, tais como Daniel Dantas, banqueiro preso pelo delegado, e o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pita. Dessa vez, diferentemente, as circunstâncias se inverteram e o réu é o próprio Protógenes. Segundo denúncias de certos queixosos, seus métodos detetivescos seriam um tanto quanto inapropriados... Quanto à CPI da Privataria e outras denúncias referentes à era FHC, pelo visto a justiça nesses casos parece efetivamente incapaz de agir no mesmo ritmo cerrado e na mesma direção também, quer dizer, adiante.


Entrevistado em 2007 pelo célebre programa Hard Talk, da BBC de Londres, Fernando Henrique, acusado de fracassar com a pobreza, ao contrário de seu sucessor petista, e de não ter conseguido mudar nada em seu governo, sequer os vícios da cultura política brasileira, após certa teimosia, tenta dar uma engraxada em seu interlocutor e reconhece: “Well, você está certo. No caso da cultura política, você está certo. Mas eu acho que consegui mudar o país”. A essa altura já desconfiado, notando (ele também, todo mundo nota) a mesma coisa que me levou a escrever este artigo, o entrevistador provocou: “Não tenho tanta certeza assim, quer dizer, o senhor realmente acredita nisso?!


Era a pergunta de 1 milhão de dólares. A única que realmente importava. E ela apontava para uma verdade proibida, vampiresca, que por nada no mundo concordaria em vir à luz. A entrevista nem bem começara e, na cabeça do entrevistador, já havia terminado. Até que, adiante, em certo ponto, fazendo jus ao efeito-PSDB, o Sr. Cardoso, por mais desencontrada que soe tal estratégia, incorre na tolice de puxar o assunto da corrupção no Brasil [exato, pasmo leitor, corrupção] na vã tentativa de mostrar seu valor frente ao governo do PT, mas novamente segue falhando em ser levado a sério.


“Então o senhor concorda que o presidente deva dar indicações claras de liderança no combate a corrupção?” O sociólogo se apressa: “Well, I think so”, dispara, numa pronúncia veloz que quase soou, para ouvidos nacionais, “Uai, acho que sim”. O apresentador prossegue firme, porém, metódico, cauteloso, como se procurasse desarticular um caranguejo explosivo: “O senhor deu?... Deu essa indicação clara?... o senhor, que esteve na liderança durante dois mandatos? Que tipo de liderança o senhor representou?” Dessa vez FHC responde como se, de súbito, tivesse muita coisa na cabeça ao mesmo tempo, aparentemente: “Well, não existe nenhum caso, eh... em meu governo... de alguém que tenha sido indiciado, eh... ou algo assim, ah... e que esteja... que tenha sido, ah, resguardado por mim...


“Isso me leva direto à essência do meu caso, por assim dizer”, animou-se de repente o britânico, “pois, segundo entendo, o senhor nomeou como procurador geral, Geraldo Brindeiro, que sentou no cargo durante anos e recebeu, de acordo com a imprensa brasileira, mais de 600 processos criminais contra funcionários do governo. A vasta maioria desses inquéritos ele simplesmente arquivou. Há inclusive um apelido [sim, que o caro leitor bem conhece, ‘o engavetador geral da república’], algo do tipo ‘o sumidor de arquivos’, será que isso é porque o senhor fica sugerindo que não havia nada de ilegal ocorrendo, de modo algum, durante a sua presidência, enquanto ele [Brindeiro] se mantinha sentado sobre tais alegações?”


Depois dessa pergunta, apesar de ainda faltar meia conversa e litros de vaselina pela frente, de repente não havia mais necessidade alguma de respostas. Dessa vez a conversa no programa Hard Talk não foi assim tão dura. As explicações tornaram-se cada vez ma
is viscosas e escorregadias ao ponto de deixar patinando a esmo no mesmo lugar o questionador mais sobriamente embasado. Assim é a retórica tucana, nessas eleições principalmente, pura e ilusória maquiagem partidarista, como facilmente se nota.

Analisemos para esse fim, portanto (senão pelo bem da ciência, ao menos por diversão), voltando um pouco mais no tempo através do Youtube, a pertinência das afirmações contidas em um único trecho da apresentação do então presidente FHC na Conferência dos Estados Progressistas, sediada em Florença, Itália, em 1999.


Sentado ao lado de outro conterrâneo da rainha, o ex-prime minister Tony Blair, FHC, então em seu segundo mandato, tenta engraxar a audiência de modo flagrante (um vexame que não convence o dono do martelo, Bill Clinton), na esperança de justificar seu desempenho como o responsável pela, novamente escangalhada, economia brasileira. 

Segue o trecho:


“Depois de termos conseguido controlar a inflação em 1994 [final do período Itamar], logo em seguida veio [quem?] a crise provocada pelo México [claaaro!], ou melhor, pela economia internacional do México. Eu passei os primeiros meses do meu governo tentando evitar as conseqüências dessa crise [ah, então era isso?!], a receita é conhecida: aumentar as taxas de juros, diminuir a demanda interna e baixar a taxa de crescimento para controlar a inflação. [Hein? Que receita é essa, companheiro?] Na tentativa que fizemos em março de 1995 [início do período FHC] para seguir essas receitas, nós perdemos, só em um mês, 10 bilhões de dólares das nossas reservas.”

Talvez seja uma questão de tradição. 


Como uma nuvem de gafanhotos abandonando as dunas áridas do Saara, as gestões tucanas, ao menos segundo a ortodoxia, não raro deixam atrás de si ― além de eventuais latifúndios com aeroportos particulares, a tendência da moda neste verão-inverno ― uma trilha de onerosas obras faraônicas e programas obsoletos, irresponsáveis rombos financeiros, hospitais fechados por falta de recursos, reformas ou por simples esquecimento, escolas dilapidadas ou abandonadas, estados inteiros endividados, prefeituras falidas, além de uma nuvem de acusações e indiciamentos que, quando não é imediatamente varrida por algum vendaval indecoroso, decanta lentamente, sem pressa ou cerimônia, tornando-se uma fina e imperceptível película de poeira que recobre a tudo no cenário, enterrando as suspeitas, apesar de deixar revelada cada impressão digital, escandalosamente.


Lula, por sua vez, ao assumir, teve que brigar para não cortar despesas e manter os investimentos. Estava decidido a controlar os gastos apenas no que diz respeito à máquina pública, sendo diversas vezes recriminado pelos economistas de estimação do Jornal da Globo por sair na contra-mão de uma consagrada receita econômica mundial, optando por uma política simetricamente oposta a do PSDB. “Nós não vamos investir nenhum centavo em custeio enquanto tiver dificuldade, mas vamos investir todos os centavos possíveis em coisas produtivas, em coisas que possam gerar emprego, em coisas que possam gerar distribuição de renda, salário e poder de compra”.


Em resposta a críticas feitas ao governo Lula por FHC e Aécio, a senadora Gleisi Hoffmann, em sessão no Senado Federal em fevereiro deste ano, desmembrou com clareza e tranqüilidade a propaganda eleitoreira tucana, simplesmente demonstrando em plenário, com dados oficiais para o regimento da casa, como coube ao PT recuperar a estabilidade da moeda brasileira em 2003, após conquistar o poder das mãos do PSDB. 

“O maior apoio que o presidente Lula e que o PT poderiam dar ao Real o deram quando assumiram esse país, reafirmando os pressupostos da estabilidade macroeconômica”, atesta a senadora.


“Se é verdade que o Brasil enfrentava crises, dúvidas, ataques especulativos em 1994, quando o Real era implantado, não menos verdade era a situação idêntica enfrentada pelo país quando o presidente Lula assumiu, sucedendo o presidente Fernando Henrique Cardoso.” Também tendo feito parte da transição, Gleisi testemunhou o mesmo drama relatado incansavelmente por Ciro Gomes, Amaury Ribeiro Jr., Paulo Henrique Amorim e tantos outros. “O então patriarca do Plano Real”, prossegue irônica, “entregava o país em condições tão adversas como tinha enfrentado quando implantou o Plano. Um desvio de caminho, eu julgo, ocasionado pela pedra da reeleição, tirara o Real dos trilhos. Coube àquela oposição, coube ao presidente Lula, coube ao PT, reconduzi-lo...”


Olhando agora para outro ponto do continuum espaço-temporal, para o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em 2010, no coração industrial da portentosa São Paulo, eu flagro o ex-presidente da nação e fundador do Partido dos Trabalhadores, um nordestino de origem pobre, o sétimo filho de um casal de analfabetos, de retirantes da seca, falando do feito relatado pela senadora com comovente energia: “Foi preciso chegar um operário socialista para ensinar os capitalistas brasileiros a serem capitalistas”, bradou Luis Inácio, o microfone em punho, a voz estourada pela luta sindical, “foi necessário chegar para dizer que não é possível um país capitalista sem capital! E hoje [...] o crédito que era só de 380 bilhões é de 1 trilhão e 420 bilhões de dólares!”


“O nosso PIB cresceu em média nesses últimos onze anos 3,5%”, exclamou a senadora Gleisi, sob as luzes do plenário, “o nosso consumo cresceu 4,3% e o nosso investimento cresceu mais do que o consumo, 5,7%. [...] Nós estamos entre os maiores destinos de investimentos diretos, 64 bilhões de Reais foram captados em 2013, o nosso comércio exterior saiu de 100 bilhões para 480 bilhões, mas isso não bastava. [...] O povo tinha que ser beneficiado com essa ação [...] Por isso, o presidente Lula foi muito ousado, assim como o é a presidenta Dilma”, ressalta Gleisi, inflexível. 


“Resguardando todos os pressupostos da macroeconomia, ousamos investir e fazer políticas sociais para melhorar a vida do nosso povo”, discorre extrovertidamente a senadora, arrolando números exemplares com orgulho, sem nada temer. “Criamos em onze anos vinte milhões de empregos, em onze anos tiramos 36 milhões de pessoas da miséria, em onze anos 42 milhões de pessoas ascenderam à classe média. Eu pergunto... senhores senadores, senhoras senadoras, quem nos ouve... quantos países em onze anos controlaram a inflação, garantiram emprego, cresceram no consumo e no investimento da sua economia?”, desafia Gleisi e segue, sem esperar respostas. A resposta, aqui também, é desnecessária. Embora não por razões inconfessáveis, diferente da entrevista de FHC no HardTalk. Aqui as perguntas realmente são meramente retóricas.


“Quantos países em onzes anos reduziram a dívida pública à metade? Quantos países em onze anos conseguiram controlar suas despesas de custeio e reduzir os gastos com pessoal de 4.8% para 4.2% do PIB? Quantos países em onze anos conseguiram saltar de uma reserva de 38 bilhões de dólares para 376 bilhões de dólares? Quantos países em onze anos aumentaram a sua oferta de crédito de 24% do PIB para 56,5% do PIB? Aumentamos garantias, ampliamos o universo de quem tinha acesso a crédito e [aumentamos] o acesso de 70 milhões para 120 milhões de pessoas às agências bancárias, e hoje a inadimplência é declinante!”


Talvez por isso, embora não fale inglês, embora tenha nascido entre os desfavorecidos, os miseráveis, embora não tenha tido a boa-fortuna de uma formação privilegiada, embora tenha conhecido a carestia, o pau-de-arara, o trabalho infantil e crescido sem a menor condição de freqüentar a Sorbonne, de Paris, embora tenha se lançado na carreira política na marra, por pura necessidade, mesmo faltando-lhe um nome de família capaz de abrir portas ou de merecer, por ele, grandes somas provenientes de investidores gulosos, mesmo sem contar com o apoio de mega-corporações garantindo-lhe trânsito livre e acesso ilimitado, em troca de uma dosezinha do poder do estado, a pesar de tudo isso, a entrevista (legendada) de Luis Inácio Lula da Silva no Hard Talk foi verdadeiramente imperdível. Vale conferir, paciente leitor.

Em pleno sucesso inicial da nova moeda, Fernando Henrique Cardoso assumiu e nos forçou a viver um longo período sob o arroxo da mais elevada taxa de imposto real que o mundo teve notícia. Ao ponto de que, mesmo após três bem sucedidos mandatos petistas, é evidente que o Brasil ainda está tentando se livrar dos problemas acarretados pelo efeito-PSDB ― como afirma Ciro Gomes, muito pertinentemente ― e pela onipresente influência dos interesses do tucanato paulista na política e na riqueza brasileiras. Praticamente todos os indicadores do governo FHC demonstram que houve um brusco retrocesso com relação à administração anterior, de Itamar Franco, e atestam que o que sobrou do país para ser entregue ao PT, de Lula e Dilma, significava um verdadeiro desafio de gestão. 


Para o eleitor brasileiro, o importante é saber que ― boataria à parte ― o governo Dilma obteve, nos três primeiros anos, a mais baixa inflação média desde o Plano Real, implantado pelo saudoso presidente Itamar Franco ― mesmo que essa realidade nunca apareça na televisão. Não esquecendo, é claro, que se há uma ampla campanha de desinformação por parte do PiG a obscurecer o assunto é porque todo o marketing do PSDB pode ser resumido em tentar dissimular sua evidente incapacidade de governar o Brasil, e essas duas situações na verdade são um só problema.


Um problema oriundo da consistência intangível, da solidez imaterial da moral tucana e cada uma de suas certezas inexatas, imprecisas, da poderosa impotência que confere a seu projeto político esse eterno ar de imbatível fracassado entre os mais gloriosos perdedores, da incompetência superior característica e todos os demais oxímoros que possam tão bem descrever as indiscrições onerosas do efeito-PSDB. Tudo isso é um só problema, o mesmo antigo e inaceitável problema da sociedade brasileira.

Felizmente, hoje em dia, trata-se de um probleminha insignificante, um contratempo que se resolve votando.

(Escrito por J.G. Pinheiro.)




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ITAMAR FRANCO revela a farsa de FHC sobre o plano Real:




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A PRIVATARIA TUCANA, na visão de CIRO GOMES:




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Memória Viva | Ciro Gomes | Parte 2 | Bloco 2 - 16/02/2013:


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Debate acirrado entre Ciro Gomes e Rodrigo Constantino:




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FHC (PSDB) QUEBROU O BRASIL 3 VEZES 
E O ENTREGOU AO FMI:




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Entenda como e por que FHC quebrou o Brasil três vezes:



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Gleisi mostra como Lula salvou o plano Real do fracasso: